DISCURSUS
Filosofia Moderna
Texto sobre Natureza e Sociedade
Menu Geral
Período
Serviço
Início
Serviço
Navegação
Script gratuito fornecido por JavaScript Kits

NATUREZA E SOCIEDADE

  • Nature e Société;
Por Antônio Rogério da Silva

Apesar da fragmentação do império romano e da própria igreja, o catolicismo permaneceu como a única instituição capaz de reunir a maioria da Europa em torno de uma só tradição, ao longo de toda Idade Média. Contribuiu para isso o sincretismo que marcou o trato do cristianismo com todos os povos estrangeiros que procurava converter a suas crenças, pelo menos desde a vitória de Paulo de Tarso (cc. 67) no primeiro Concílio de Jerusalém (49). Os rituais e cultos pagãos logo eram incorporados em missas e festivais católicos de toda espécie. Ainda que a forma remetesse aos costumes gentios, o conteúdo das novas práticas absorvidas transformava-se rapidamente seu significado em conceitos cristãos. Foi assim com a páscoa – antigo ritual do culto a Átis e Cibele– e até com o natal – herança do mitraísmo muito popular entre os militares romanos.
O sincretismo, embora fosse uma estratégia de conversão muito eficaz na adaptação de novas culturas, empunha o risco de descaracterizar a missão evangelista dos primeiros cristãos. Em alguns casos tornou-se um veneno mortal para a unidade religiosa, principalmente quando passou adotar hábitos germânicos de pagar suas penalidades em dinheiro. A aceitação das multas como forma de pagamento dos pecados levou à criação e venda de indulgências que contaminaram toda instituição eclesiástica com a corrupção. Foi preciso que Martin Lutero (1483-1546) – um monge agostiniano – pregasse suas Noventa e Cinco Teses à porta da catedral de Wittenberg para que o movimento da Reforma fosse detonado e espalhasse por toda Europa, dividindo definitivamente os cristãos e impondo um duro ataque aos abusos de autoridade da estrutura corrupta do papado romano.
O movimento reformista foi importante não só para os assuntos teológicos, mas também para o desenvolvimento científico e filosófico que vinha sendo controlado pela ortodoxia da igreja. Novas traduções de textos antigos retomavam o debate argumentado, livre das influências e ameaças religiosas. A pesquisa sobre a natureza e a sociedade ganhou novas linhas investigativas baseadas no valor da antiguidade dos documentos descobertos.
Não obstante, essa nova onda intelectual renascia, como é típico de períodos de transição históricos, marcada pela superstição esotérica e gnóstica (que acredita em uma verdade divina oculta na natureza). O amadurecimento renascentista pode ser exemplificado pelo caso exemplar da desmistificação da obra atribuída a um incerto Hermes Trismegisto (séc. III). A tradução do seu Corpus Hermeticum, por parte do influente intelectual italiano Marsílio Ficino (1433-1499), cativou o pensamento de vários autores de mentalidade científica durante o Renascimento. O que fora estabelecido por volta dos séculos II e III fora considerado de autoria do imaginário Trismegisto, um sábio egípcio que teria compilado os ensinamentos do antigo Egito no tempo de Moisés (séc.XIII a.C.). No falso documento, havia uma suposta profecia sobre a vinda de Cristo (4 a.C – 30), misturada com anotações astrológicas, alquímicas e fórmulas mágicas ao estilo das encontradas no Livro dos Mortos egípcio.
Esse hermetismo contaminou todo pensamento erudito de seu tempo e sem embargo o fato de ser imaginado como de autoria pagã, por causa da previsão do advento do cristianismo, contou com o aval da própria igreja. De Leonardo da Vinci (1452-1519) até Isaac Newton (1642-1727), a maioria dos cientistas acreditava nas informações expostas no Corpus Hermeticum. Foi só a partir de Isaac Casaubon (1559-1614) – erudito protestante de Genebra (Suíça) – que essa crença se desmascarou. Casaubon provou em 1610 que aquela obra não passava de uma farsa montada sobre textos neoplatônicos dos primeiros três séculos depois de Cristo.
Durante cerca de 150 anos – de 1460 a 1610 – o hermetismo foi a principal corrente da ciência da natureza, no Renascimento. Sua atmosfera mística continuou atraindo pseudocientistas – desavisados ou mal intencionados – que mesmo nos dias atuais pensam que podem obter o controle da natureza através de fórmulas e passes de mágica. Contudo, aqueles intelectuais que tomavam consciência das revelações de Casaubon logo procuraram se afastar do misticismo em suas pesquisas científicas depois do século XVII, quando o Renascimento cedeu lugar aos critérios mais lúcidos do Iluminismo.

A Era das Luzes

Em oposição á Idade Média – também chamada de idade das trevas -, o Iluminismo ou Esclarecimento se tornou conhecido como a Era das Luzes. Principalmente, porque considerações obscurantistas e supersticiosas da igreja e do Renascimento foram confrontadas com o teste da realidade e por argumentos racionais. A visão da natureza controlada por leis ocultas e magia permaneceu forte até a primeira metade do século XVII. Desde então, um novo entendimento baseado na experiência e no método hipotético dedutivo passou a orientar o pensamento iluminista que já despontava.
O inglês Thomas Hobbes (1582-1679) foi o primeiro a propor uma interpretação contratualista para formação da sociedade com argumento deduzidos geometricamente – isto é, a partir de axiomas que geravam proposições e teoremas subsequentes. Sua concepção materialista escandalizou uma geração e ainda causa muita polêmica e mal entendidos. Para Hobbes, o estado seria formado artificialmente como se fosse um gigantesco Leviatã construído por acordos entre indivíduos que concordavam em abdicar da força para resolverem divergências mútuas. Tal “monstro artificial” poderia intervir sempre que solicitado para dirimir as dúvidas entre as partes e obrigar o cumprimento dos contratos. Tudo isso a fim de evitar que a humanidade vivesse eternamente em um estado de guerra generalizado de todos contra todos. Só assim, com a criação de um estado civil forte e soberano a paz poderia ser garantida entre os cidadãos de uma sociedade [1].
A revolução implantada na teoria política por Hobbes teve sua contrapartida metafísica no novo método racionalista criado por René Descartes (1596-1650). A dúvida metódica da qual Descartes partiu para fundar suas meditações transpunha para o interior da racionalidade humana tudo que havia de certo e distinto na natureza. Deste modo, o indivíduo poderia duvidar de todo conhecimento enganoso que obtivesse através dos sentidos. Tendo a certeza de sua existência, apenas se estivesse apoiada no pensamento fundamento, indubitável e seguro da verdade do mundo externo.
Todo esse raciocínio fora desenvolvido nos textos do Discurso sobre o Método (1637) e nas Meditações Metafísicas (1641). A estrutura do pensamento, a rigor, não era nova, pois Agostinho de Hipona (354-430) já havia enunciado algo parecido em seus Solilóquios (387) e na Cidade de Deus (413) [2]. A novidade cartesiana encontrava-se, sobretudo, na metodologia axiomática e na dedução de seus teoremas com base em uma verdade deduzida racionalmente da existência indubitável da mente pensante e das ideias nascidas com o indivíduo. Toda realidade, agora, seria decorrente dessa existência racionalmente constituída.
Nesse sentido, os fundamentos da concepção da natureza e sociedade moderna sustentavam-se na capacidade racional do indivíduo em justificar a existência das coisas que o cercam e sua relação intersubjetiva com outros seres pensantes. Tudo deixaria de ser uma mera criação divina para apoiar-se na construção subjetiva do cidadão racional. A influência materialista de Hobbes e idealista, mas ao mesmo tempo mecanicista de Descartes marcaram todo período iluminista, servindo de pano de fundo para as discussões que se seguiram.
Enquanto Descartes, com prudência – para não ser condenado como Galileu Galilei (1564-1642) -, enfatizava o dualismo na natureza – matéria e forma ideal – sem se aventurar em uma interpretação mais radical da sociedade; na Inglaterra Hobbes arriscou-se mais na sua concepção política monista – meramente material – do que na metafísica. Uma visão completa da sociedade e da natureza foi assumida com todas as consequências pelo filósofo holandês Baruch Spinoza (1632-1677), que resgatou a teoria unificadora do pré-socrático Parmênides de Eleia (515-440 a.C.) – para quem “tudo é um” [3]. Spinoza defendia que a natureza equivalia a deus em uma única substância infinita a abranger todas as coisas. Essa famosa formulação panteísta da natureza confrontava com a religião que considerava a matéria uma criação divina e fonte do mau. O panteísmo de Spinoza valeu-lhe a excomunhão do judaísmo e o desprezo dos cristãos.
Na filosofia da natureza, Spinoza divergiu tanto do empirismo hobbesiano, quanto do dualismo cartesiano, mas na política tendeu a concordar com Hobbes. Deste discordava apenas na necessidade dos cidadãos preservarem sua liberdade mesmo sob o regime monárquico, pois o desejo de conservá-la é que manteria todos dedicados à preservação da sociedade [4]. Hobbes, ao contrário, determinava que o poder absoluto e a submissão ao soberano seria a principal razão para manutenção do estado [5].

Empirismo Britânico, Revolução Francesa e Romantismo Alemão

O empirismo britânico teve em Hobbes uma vertente nominalista que propunha um conhecimento da natureza com base na compreensão da linguagem totalmente dissociado da verdadeira constituição das coisas – em última instância inatingível ao ser humano. As leis e o arranjo racional das palavras seriam responsáveis pelo estabelecimento da crença corrente na sociedade acerca da natureza. Mais uma vez, Hobbes distanciava-se, neste ponto, da visão cartesiana que fundava a verdade das coisas na análise correta do pensamento que se tem sobre estas.
Outra concepção empirista muito influente foi sistematizada pelo médico e filósofo inglês John Locke (1632-1704). Locke foi o primeiro iluminista a admitir limitações para o conhecimento racional. Os limites da mente impediam que esta estivesse apta para avançar além da criação de conceitos abstratos. Para conhecer a natureza e os objetos sensíveis, a razão dependia dos sentidos e das sensações. Nesse sentido, ele rejeitava a existência de ideias inatas sobre o mundo e, portanto, a mente deveria ser como um “papel em branco” no qual se preencheria o conteúdo fornecido pela experiência. A observação empírica produziria através dos sentidos as ideias sensíveis que todos temos do mundo externo, em primeiro lugar. Só depois é que a reflexão deduziria as ideias formais reflexivas. Por meio da mera especulação do pensamento puro metafísico não se poderia atingir nada transcendente á reflexão e das sensações.
A Revolução de 1776 dos Estados Unidos iniciou uma era de ideais racionalistas e românticos na políticaCom respeito à organização da sociedade, Locke rejeitou o direito divino dos reis e adotou uma postura contratualista. Seu contrato social – diferente de Hobbes – limitava os poderes do soberano, dividindo o controle do estado com o legislativo e judiciário, independentes do executivo, que lhes era submisso. A teoria política liberal de Locke inspirou os colonos estadunidenses a realizarem a Revolução de 1776, detonadora da era das revoluções.
Na França, as ideias revolucionárias do liberalismo despertaram as consciências de uma geração de pensadores, como os iconoclastas Voltaire (François-Marie Arouet, 1694-1778), Jean Le Rond D’Alambert (1717-1783). Denis Diderot (1713-1784). Dentre estes, destacou-se a personalidade inquieta de Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), cujas obras sobre a natureza, política e pedagogia foram fundamentais para moldar o pensamento posterior. Rousseau acreditava em um estado de natureza harmonioso que permitiria aos animais o pleno desenvolvimento de suas capacidades. Tal quais os animais, os seres humanos viveriam íntegros e livres de vícios, como representado pela figura imaginária do bom selvagem [6].
Todo o mal sofrido pela humanidade decorreria da ambição e do enganoso sucesso inicial oriundo das primeiras formas de organização. Para Rousseau, o êxito momentâneo de uma cooperação social levaria a despertar a ambição e todo mal que a uma distribuição desigual dos bens e o acúmulo de riqueza provocariam na sociedade moderna [7]. A fim de evitar o pior, propunha uma forma de governo democrático republicano, baseado no contrato social, onde as ações dos governantes deveriam ser pautadas pela vontade geral [8].
Nesse sentido, a educação das crianças precisava resgatar as qualidades primitivas naturais que foram reprimidas no processo de socialização. A criança, no entender de Rousseau, seria dotada de uma bondade natural. A tarefa do educador estava, portanto, em evitar que ao crescer ela se tornasse um adulto mal, devido seu contato com a civilização. Esse argumento negativo tinha dois objetivos principais. Primeiro, estimular o desenvolvimento dos dons naturais humanos e, por conseguinte, afastá-lo dos males do convívio social.
De uma perspectiva positiva, a pedagogia sugerida por Rousseau defendia as atividades ao ar livre, para o aprimoramento das aptidões físicas da criança, suas habilidades naturais e a plena capacidade dos sentidos. Ao invés de se ater ao estudo de textos didáticos, como ferramenta básica, Rousseau pretendia que o conhecimento do mundo fosse obtido do contato direto da criança com a natureza, sob a supervisão de um educador que buscasse formar a autossuficiência de seu aluno. Uma vez adquirida a consciência, o jovem estaria agora pronto para atingir o conhecimento moral no relacionamento com seus semelhante, agora sim voltado para a cooperação mútua [9]. A pedagogia de Rousseau resgatava, assim, a consequência política que a paideia helênica tinha por alvo: a formação de uma comunidade em que todos cidadãos fosse responsável por sua sustentação.
A publicação de Emílio teve repercussão imediata entre os centros mais esclarecidos da Europa. Na Prùssia (Alemanha), o folclórico filósofo de Koenigsberg Immanuel Kant (1724-1804) atrasou seu famoso passeio diário pontual só terminar a leitura do livro. Kant via como principal tarefa do iluminismo o esclarecimento de toda humanidade, no intuito de tirá-la do estágio mental infantil em que se encontrava – e ainda se encontra atualmente.
Sem aderir integralmente à interpretação sentimental de Rousseau, sobre o passado da espécie, Kant admitia, como Locke, que para ter a completa consciência das coisas era preciso reconhecer as limitações da razão em alcançá-la. Todo conhecimento natural só seria possível através da experiência sensível. Contudo, devido à impossibilidade de se atingir o conhecimento absoluto das coisas por elas mesmas, restariam apenas os fenômenos aparentes como meta factível para razão. Essa crítica à racionalidade pura absoluta foi a resposta kantiana às posições extremadas do dogmatismo racionalista dos cartesianos e do ceticismo britânico.
Contudo, o espírito romântico das ideias de Rousseau e da Revolução Francesa implantaram na geração futura dos filósofos alemães a semente da busca por uma razão ilimitada capaz de compreender o mundo por meio de uma concepção metafísica das essências dos fenômenos naturais. A febre romântica involuntariamente provocada pelas discordâncias de Kant influenciou a modernidade e o século XX, que a seguiu.

Notas

1.Veja HOBBES, T. Leviatã.
2Veja AGOSTINHO, Solilóquios.
3PARMÊNIDES, Poema do Ser.
4Veja SPINOZA, B. Tratado Político, cap. VII, § 31, p. 92.
5Veja HOBBES, T. Leviatã.
6Ver ROUSSEAU, J-J. Discurso sobre a Desigualdade entre os Homens.
7Ver ROUSSEAU, J-J. Op. Cit.
8Ver ROUSSEAU, J-J. Contrato Social.
9Ver ROUSSEAU, J-J. Emílio.

Referências Bibliográficas

AGOSTINHO DE HIPONA, Solilóquios, trad. Antonio A. Minghetti. - São Paulo: Escala, s/d.

ELIADE, M. Historia de las Creencias y de ls Ideas Religiosas, trad. Jesus V. Malla. – Barcelona: Pados, 1979.

SPINOZA, B. Tratado Político, trad. Manuel de Castro. - Lisboa: Estampa, 1977.

HOBBES, T. Leviatã; trad. João P. Monteiro e Mª B. N. Da Silva - São Paulo: Abril Cultural, 1983.

MONDOLFO, R. O Pensamento Antigo; trad. Lycurgo G. Da Motta. - São Paulo: Mestre Jou, 1973.

ROUSSEAU, J-J. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens; trad. Lourdes S. Machado. - São Paulo: Abril Cultural, 1983

____. Contrato Social; trad. Lourdes S. Machado. - São Paulo: Abril Cultural, 1983.